A revolução tecnológica e a fábrica de lixão humano

Na maioria das casas existe um lugar para cada coisa. Os quartos, para dormir. A sala, para receber visitas. A cozinha, para cozinhar… Também há um lugar para depositar o lixo, um local ou recipiente onde jogamos as sobras, os restos.

Estes restos que jogamos fora é aquilo que já não nos serve mais ou que já serviu, já estragou. É lixo. Esta palavra, “lixo”, lembra, para muitos, coisas sujas, podres, asquerosas. Assim, se toma um insulto terrível dizer para alguém: você é lixo!

No entanto, esta mesma palavra: “lixo” lembra, para outros, algo bom. Para estes o lixo é fonte (se bem que não reconhecida) de trabalho. Dependem dela. São pessoas que juntam, pelas ruas ou nos lixões, papéis, papelão, metais, vidros, sobras de comida, enfim, tudo o que possa ser reaproveitado, reprocessado.

O incrível é que, do mesmo modo como se faz com as coisas, também se faz com as pessoas. Assim como se separa e se joga o lixo fora, se faz o mesmo com os pobres. São separados, colocados de lado, afastados para as periferias das cidades para que não perturbem, não sujem, não provoquem mal-estar. A hipocrisia burguesa não os chama de lixo, mas os trata como tal.

Nossos dias são marcados pela revolução tecnológica. Um processo que transformou profundamente a relação entre as pessoas. E transformou profundamente a relação entre as pessoas das lidas com a natureza. Os idosos entre nós, homens e mulheres, ainda conheceram tempos diferentes. A técnica era pouca, a comunicação era direta. Havia continentes inteiros com a natureza intacta. Um quadro que sugere harmonia assim como os relatos da criação em Gênesis. O trabalho, as atividades produtivas, tinham, principalmente, a função de preservar e reproduzir a vida.

Este quadro mudou profundamente. Os últimos cem anos de nossa história registram transformações intensas e irreversíveis. As relações entre as pessoas são marcadas basicamente pela competição e pela concorrência. A natureza tornou-se absolutamente manipulável. Este processo tem uma motivação básica: a busca sempre mais intensa do lucro. As relações sociais são mediadas pelo lucro. O trabalho, a atividade produtiva, visa essencialmente o lucro. A preservação e a reprodução da vida são vistas sob a perspectiva do investimento e da rentabilidade. Pessoas e natureza foram transformadas em objetos, passíveis da exploração, visando o lucro.

Este processo leva à concentração e à polarização. Por um lado, há concentração de poder, de riquezas, de saber e de qualidade de vida nas mãos de pequenas elites nacionais e, num quadro mais amplo, em poucos países. Por outro lado, nunca houve tanta fome e miséria. A ameaça de uma catástrofe ecológica nunca foi tão real como em nossos dias. O progresso movido pela sede do lucro tem a morte como resultado.

No ideal verdadeiramente humano deveria ter uma lógica diferente. O trabalho teria que ter a função de preservar e reproduzir a vida. As relações produtivas entre as pessoas deveriam estar a serviço ao próximo.

É a partir do olhar ético que o mundo precisa encarar os desafios que o desenvolvimento social nos impõe. É sob o ponto de vista ético que temos que olhar para a integração social, para o combate à pobreza, para a geração de emprego, que são os três temas desta conferência. Que valores queremos num mundo que exclui, deixa com fome e divide cidadãos e cidadãs entre os que comem e os que não comem?

Eu tenho um credo. Acredito na democracia. Acredito na democracia como o único instrumento capaz de atender as questões da integração social, do combate à pobreza e da geração de emprego. A democracia é um valor ético, um conjunto de princípios éticos que precisam ser perseguidos todo o tempo.

 

 

Filósofo e Teólogo – Professor de Filosofia, Antropologia e História – Professor aposentado da UNIPAR/UNIVEL e CTESOP- Professor da Rede Estadual de Educação – Colégio Chateaubriandense

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