Brasil, 518 anos de história e ainda não superou a corrupção

Para o Secretário Executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB, Francisco Whitaker “a palavra corrupção tem um significado muito forte. É sinônimo de deterioração, putrefação. Uma matéria corrompida é uma matéria morta. Uma sociedade em que existe corrupção está se desfazendo, morrendo.

Corrupção desde o período colonial
A corrupção sempre esteve presente na história do Brasil. Uma das razões é a distância de Portugal. Por estar longe do centro político, a vigilância era muito frágil e precária. É preciso lembrar que o Brasil sempre foi a terra de oportunidades afirma a historiadora Adriana Romeiro que vasculhou documentos em arquivos e bibliotecas do Brasil, Portugal e Espanha.
A corrupção política, ou a corrupção na política de uma determinada sociedade deteriora as próprias estruturas da sociedade, uma vez que a política é o cuidado com o que é coletivo, de todos, é a busca de solução para os problemas que a sociedade como um todo enfrenta. A corrupção na política é aproveitar-se, apropriar-se do que é coletivo, em benefício próprio. É roubar. Se os agentes públicos – os políticos – são corruptos, e/ou se associam a agentes privados corruptores, a saúde da sociedade corre sérios riscos. Faltando o respeito pelo que é de todos, prevalece no comportamento de cada um vale-tudo, o “levar vantagem” em tudo, o enganar para escapar ileso de eventuais punições.

O cenário, os atores e os poderes
A corrupção está muito espalhada pelos diferentes setores e níveis da atividade política: no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, do nível federal ao nível municipal. Faz parte também dos comportamentos das empresas privadas que trabalham para o governo – em obras e serviços – ou que dele dependem para autorizações e legalizações de suas atividades.
No Executivo e no Legislativo ela é pior do que no Judiciário, porque estes Poderes mexem diretamente com o dinheiro e com as legalizações. Os Legislativos costumam ser comparados com balcões de negócios. O Executivo nacional já chegou até a criar mecanismos para lavagem de dinheiro sujo – obtido com o narcotráfico ou com a corrupção – como as contas suspeitas no exterior com cara de legalidade.
Por outro lado, vem ocorrendo uma mudança no sentido de se ter mais consciência de que a corrupção não deve ser aceita, pode ser denunciada mais amplamente. Nos tempos da ditadura ela corria solta, mas ninguém podia falar nada. Hoje a imprensa tem mais coragem e liberdade para denunciar – quando não se deixa comprar pelos interessados em manter tudo escondido, corrompendo-se ela mesma.
Há também progressos na punição. Já conseguimos até destituir um presidente da República por corrupção. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Há muito mais podridão sob o nosso céu azul do que se consegue imaginar.

A corrupção exclui e mata
A corrupção política faz a sociedade se corromper – ou seja, se deteriorar – através dos exemplos que os políticos dão, ainda mais se conseguem ficar impunes. Mas além desse malefício relativo aos comportamentos, há quem diga que um terço do que se gasta nos governos se esvai pelos ralos da corrupção. Isto tudo é dinheiro coletivo que se perde, deixando-se de atender uma grande quantidade de necessidades sociais.
A exclusão social é resultado da lógica de funcionamento do sistema econômico vigente no país, orientado para a acumulação sem fim do capital. Este sistema é hegemônico hoje no mundo e está levando à exclusão de cada vez mais populações e até países inteiros. Esse sistema se relaciona com a corrupção na medida em que na sociedade capitalista as pessoas não são vistas como cidadãos, mas como consumidores. Um cidadão tem direitos que a sociedade deve atender, tenha ele dinheiro ou não. Um consumidor terá suas necessidades atendidas se tiver dinheiro para isso.

Corrupção: uma verdadeira máquina da injustiça
A corrupção dá acesso ao dinheiro. Mas a corrupção também agrava a exclusão na medida em que os recursos roubados poderiam ser investidos para diminuir a exclusão, gerando empregos, prestando serviços ou construindo equipamentos coletivos necessários à elevação dos níveis de vida.

O que fazer para mudar?
Para mudar este quadro, em primeiro lugar é preciso que cada um de nós, na sua vida cotidiana e na sua vida de cidadão atue de forma limpa, pensando nos outros, alertando todos que pudermos para os males da corrupção e para a verdadeira função do político, trabalhar para que sejam eleitas pessoas dignas de exercer mandatos políticos e denunciar toda improbidade que tiver nosso conhecimento etc.. Isto é, tornar-se um agente de mudança pelo fim da corrupção. Ela só acabará com a pressão da sociedade, de baixo para cima. E essa pressão só ocorrerá se a sociedade reagir, não se deixando corromper. É preciso criar na sociedade uma repulsa à corrupção tão forte como já se conseguiu fazer com a tortura. A tortura atinge uma pessoa de cada vez. A corrupção oprime populações inteiras. Ambas são absolutamente inaceitáveis. Ambas podem matar. São crimes hediondos.