Curau quente

Comentar publicamente sobre manifestos de categorias é sempre um risco muito grande: o de desagradar algum lado da situação. Se o comentário for a favor dos manifestantes, alguém sempre vai dizer que se está recebendo pelo apoio, quando não vem junto a pecha de puxa-saco. Se for crítica ao movimento, os grevistas, manifestantes ou simpatizantes caem de pau se colocando como vítimas de perseguição.

O fato é que a velha premissa é verdadeira: a verdade sempre dói. Uma vez doendo, vai desagradar gregos ou baianos (ou seria troianos?).

Mas, porém, portanto, e entretanto (sem os exageros), não existe manifestação, principalmente greve, que não produza efeitos colaterais em que não tem nada a ver o movimento. Um exemplo é a greve dos professores estaduais, que parece ter sido suspendida.

Ora, foram 20 dias parados. No Mato Grosso, os professores já estão parados há mais de 50 dias. Esse tempo sem aula terá que ser reposto e os alunos terão que estudar em tempo de férias. Não adianta dizer que esses dias sem aula ficam como férias. Pois não são! Pelo contrário, não havia sido programado pelas famílias e, muitas delas, a maioria, tiveram problemas em como deixar as crianças, uma vez que não havia escolas funcionando.

Aí vem a velha ladainha pedindo para que pais, responsáveis e demais cidadãos sejam compreensivos com a categoria e apoiem os movimentos grevistas. A mesma coisa que pedem os bancários, caminhoneiros e outros tantos, quando param tudo e paralisam o país.

Tudo bem, diria a dona Maria e o Zé Periquito da venda da esquina. Mas, porém, portanto, todavia (com exageros), não existe nenhuma compreensão quando um pai de família fica desempregado. Ninguém faz movimento pra levar feijão na mesa dele nem espera mais um dia para devolver um cheque sem fundo do coitado que estourou o limite da conta. Essa história de compreender e dar apoio é uma via de mão única, do tipo “venha a nós”.

É claro que a greve é um instrumento democrático e legítimo para reivindicar direitos. Mas o direito de reclamar contra a poeira que causa certas reivindicações também é democrática.

Como diria a vovó, o curau quente é uma delícia, mas dá uma tremenda caganeira.

Qualquer reclamação contrária às linhas de cima será absolutamente compreensível, por isso, vamos à luta “cumpanheros!”.