Para que serve a educação numa sociedade violenta?

A noção de violência social é uma noção repetitiva, pois repousa sobre uma concepção implícita de social. Não é uma noção que se preste ao conhecimento da realidade que se pretende compreender ordem, apenas permite reconhecer. Nessa concepção implícita, processos, de algum modo, tornam-se necessários desconhecer. Toda a discussão corre risco de girar no vazio a menos que possamos esclarecer do que estamos falando.
Na última década, incrementam-se no Brasil as taxas de mortalidade por causas violentas, as denominadas causas externas (acidentes variados, suicídios, homicídios e outros. Em determinados agrupamentos etários, como adolescentes e jovens, representam o principal motivo de abreviamento da vida. Em grandes metrópoles como Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, mas também em cidades localizadas no interior do País.
O que quero demonstrar, inicialmente, é que a noção de violência pressupõe sempre a ruptura de uma ordem social que, por sua vez pressupõe uma teoria da legitimidade. Toda violência é, portanto, por definição, social ou implica uma concepção social da natureza ou, ao contrário, uma naturalização da sociedade. É por isso que a noção não é jamais empregada no mesmo sentido em contextos diferentes.
Falar de violência é falar de violação, geralmente entendida como uso da força contra o corpo de uma pessoa. Entretanto, o uso da força pode ser perfeitamente substituído pela sua ameaça ou pelo estratagema: a violação permanece. Portanto, na violação, o que está em jogo é o uso ilegítimo da pessoa e de seus prolongamentos “naturais”. Essa ilegitimidade, evidentemente, só pode ser definida do ponto de vista de quem é violado. E sua extensão só pode ser estabelecida de acordo com a extensão reconhecida dos prolongamentos “naturais” da pessoa. Em nossa sociedade, o corpo é o primeiro prolongamento natural da pessoa, sua propriedade mais preciosa, e a ele se referem todas as propriedades, inclusive as mais intangíveis, como a intimidade, o sigilo e, até a consciência. A consciência é uma propriedade alienável, senão não poderia vender-se. E o inconsciente pode funcionar como propriedade de capital, com altíssimos custos de manutenção.
Desde a violação da correspondência até a violação do domicílio ou da propriedade de uma empresa, a violência pressupõe uma concepção da ordem social em que a propriedade, nas suas diversas modalidades, aparece como prolongamento natural da pessoa que define legitimamente seu uso.
Essa concepção pode ser generalizada até mesmo para o domínio que o saber pretensamente exerce sobre a natureza. Quando se fala na violência de um cataclismo natural está-se indicando que as leis que regem o caráter pacífico da natureza são violadas. Entretanto, trata-se apenas das leis conhecidas, ou melhor, reconhecidas como definidoras desse caráter pacífico. Esse reconhecimento é necessariamente social.
Quando se fala em violência social, essa tautologia pressupõe igualmente uma teoria da legitimidade, dessa vez explicitamente referida à ordem social que se supõe violada. A violência vermelha das insurreições populares e das minorias ativas não se define, necessariamente, pelo caráter dos atos envolvidos pois, como vimos, inclui desde a abstinência de qualquer ato, até as mais diversas formas de pressão moral e o emprego diante da força. Ela se define pela violação da ordem social que é legítima, na medida em que é o prolongamento natural daqueles que vivem dessa ordem e, com ela, sentem-se violados. E é verdade que a ordem social – qualquer ordem social existente – é a condição de sobrevivência social daquela cuja posição na sociedade é produto dessa ordem. E é verdade que a ordem social é propriedade inviolável sua, seu prolongamento natural.
Reciprocamente, a violência branca, a violência do sistema econômico e das chamadas injustiças sociais, pressupõe o reconhecimento da própria ordem social. O aumento da violência nos últimos anos, dessa forma, contém, em sua causalidade, componentes de natureza cultural, política e social.

Filósofo e Teólogo – Professor de Filosofia, Antropologia e História; Professor aposentado da UNIPAR/UNIVEL e CTESOP;
Professor da Rede Estadual de Educação – Colégio Chateaubriandense.
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