Por que continuamos crucificando Jesus Cristo?

Quando eu era menino ganhei uma cruz que não tinha um Cristo pregado. Comecei a procurar o Cristo da minha cruz. Depois de muito tempo encontrei um Cristo que pelo menos cabia nela. Foi até engraçado. E encontrei um Cristo sem cruz que deu certinho no tamanho que eu desejava. Não foi fácil colocar o Cristo na cruz. Primeiro, tentei colá-lo. Não deu certo. Apesar de tentar várias vezes, tudo foi em vão. Então apelei para a única solução: aparafusar o Cristo na cruz. Também não foi fácil. Ao realizar esta tarefa me senti como os próprios soldados que maltrataram o Cristo ao pregá-lo na cruz. Senti as dores mais cruéis deste mundo. Dores de mãos furadas. Dores de ver o meu Cristo sendo pregado, outra vez. Fiz uma pergunta: quantas vezes pregamos o Cristo cada dia?
Vieram muitas respostas: cada vez que um fraco é oprimido; cada vez que um inocente é injustiçado; cada vez que alguém é mal pago pelo seu trabalho; cada vez que alguém é agredido; cada vez que se tramam negociatas para se lucrar em alguma coisa; cada vez que alguém tem que engolir a verdade que é clara; cada vez mais o Cristo está sendo crucificado a cada dia.
Por um instante eu senti todas as dores do Cristo. Do Cristo crucificado muitas vezes num mesmo dia. Você já se apercebeu que tudo que fazemos a um desses nossos pequenos irmãos e companheiros de vida acabamos fazendo ao próprio Cristo? Sempre que eu me lembro de minhas falhas, de meus erros de minhas negociatas, eu sinto o Cristo se retorcendo em dores.
Depois de colocar o Cristo na cruz saí contente exibindo-o sobre o peito. Mas alguém me disse alguma coisa que não gostei. Ergui a mão para bater, mas o Cristo se enganchou no meu braço. Senti que a vontade de Deus era outra. Baixei o braço e pensei no Cristo que fez tudo por nós e nunca levantou o braço contra ninguém. Eu estava crucificando mais uma vez o Cristo. Você já se apercebeu de quantas vezes o crucificamos durante o dia? O Cristo me ensinou a respeitar o próximo. Mudei de atitude. E você está disposto a mudar?
Jesus Cristo morreu na Cruz para te salvar”. Esta frase você já ouviu e através dela, quem sabe, procuramos convencer os outros do significado do sofrimento e morte de Jesus Cristo. Na Sexta-Feira Santa, certamente ouviremos a frase citada. “Jesus Cristo morreu na Cruz para te Salvar”, isto te convence? Como pode alguém morrer para salvar a humanidade? Salvar o que e para quê?
“A taça cheia de água não tem mais lugar para encher de vinho”. É necessário despejar a água para então encher a taça de vinho. Ou seja, o mundo de Jesus parecia uma taça “cheia de água”, na qual algo novo que dá alegria, liberta, que dá vida, não possui espaço. O espaço reservado a Jesus foi a cruz.
A condenação de Jesus foi a morte na Cruz. Precisamos mudar para que haja alegria, vida em abundância, e isto não faz parte do esquema dos que possuem os postos de comando, do poder. Quem quer mudar vai sofrer, ser rejeitado, julgado.
Quem quer mudar, libertar-se. Para viver dignamente, não poderá viver a sua vida às escuras, escondido do mundo. Jesus cresceu em sabedoria vivendo a vida em meio ao povo, no conflito do mundo. Viveu e praticou a verdade. Não arredou o pé. A certeza da morte na cruz fazia-se, sentir, mas da vitória também. A taça de água transformava-se, quando o opressor achava que tinha ganho o mundo.
A morte de Jesus nos mostra assim a crueldade do mundo, dos seus agentes que o dominam. Mas, Sexta-Feira Santa é também uma demonstração de amor. Deus vai conosco no sofrimento. Não nos abandona no pesar, no sofrer. O dia de hoje, o sofrer, a miséria, as injustiças se fazem sentir mais forte, principalmente quando olhamos para a cruz de Jesus Cristo e de tantas outras que foram encravadas em meio ao mundo. Mas, Sexta-Feira Santa tem sentido quando conseguimos enxergar o domingo da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Contemplar só a Sexta-Feira Santa é ver só a taça cheia de água. Mas vendo a Páscoa e ver a água cedendo ao vinho, vemos a alegria, vemos a vida vencer.

Filósofo e Teólogo – Professor de Filosofia, Antropologia e História – Professor aposentado da UNIPAR/UNIVEL e CTESOP- Professor da Rede Estadual de Educação – Colégio Chateaubriandense
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