A conjugação que deveria ser eles, tu e eu

Clóvis de Almeida 

Fecham as portas de mais uma jornada, descem as cortinas da temporada, chega o poente de um período, ou, simplesmente, acabou o ano. São muitas as frases de efeito que tentam tornar mais bonito o fim de um ciclo de 12 meses, que nada mais é do que um conjunto de medidas do tempo que o homem criou para se organizar economicamente, mas que virou contas matemáticas místicas, onde todos têm a impressão de que haverá uma mudança na “virada” de ano, como se fosse diferente das passagens entre os outros meses.

O homem cria e recria situações para adaptar a vida, tornando-a mais fácil para administrar e, uma das mais criativas, é inventar maneiras de enganar a si próprio. A mais conhecida é a que nos vende a sensação de que “no novo ano que está por vir tudo será bem melhor”. Alguém pode dizer que a esperança é a última que morre. Não há dúvidas, mas como não há garantias de nada sobre o futuro, não se pode impingir uma falsa expectativa.

Ocorre que todos já estão acostumados a entrar num ano novo cheio de esperanças e depois ir se adaptando com os reveses que a vida oferece, sem se dar conta de que as “maravilhas” previstas não ocorreram. E assim passam-se os anos.

Nesta época, cartomantes, magos, pais de santo, ciganos e outros adivinhos fazem todo tipo de previsão. Como as pessoas vivem de instantes, ninguém se lembra de cobrar as previsões no decorrer dos meses que se seguem, até que chega dezembro e novas adivinhas são previstas. Tudo pataquada, como diria a vovó.

Alguém já disse que os anos foram fatiados em meses, os meses em semanas e, esses, em dias. Da mesma forma que os seres humanos se definem como eu, nós, eles, vós e os outros. Não é necessário lembrar que a primeira definição está sempre em primeiro lugar. Alguém já viu alguém dizer ou escrever: eles, tu, eu? Então, o que todos podemos fazer para que a sensação de um ano melhor seja real é inverter as posições. Assim sendo, pensaríamos primeiro nos outros, por atacado, que são os que conhecemos, ou não. Em seguida, a preocupação deveria ser com para ‘eles’, aqueles que vemos de mãos estendidas pedindo ajuda. Depois, voltamos a quem está ao nosso lado, mais próximo, ‘nós’. Por fim, e por último, nos preocuparíamos com nossos próprios umbigos. Só assim para o mundo dar certo.

Parece hipocrisia, talvez seja, mas não é mais hipócrita do que prometer felicidade sabendo que as dificuldades estão lá na frente, babando na vontade de nos comeres vivos. Ainda mais, com um coronavírus doidinho para nos fazer “mais um”.