A era das aparências religiosas

Impressiona como as elites se esforçam para fazer-se passar por muito religiosas. Palavras, gestos, atitudes são pensadas e estudadas para angariar simpatias e popularidade.

São seguidores autênticos da doutrina da obra o Príncipe de Maquiavel que diz: Não é necessário, a um príncipe, possuir todas as qualidades, mas é preciso parecer ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso já que às vezes é necessário.

O dicionário etimológico explica que aparência. Do latim apparentia. 1. Aspecto exterior de alguma coisa. 2. Coisa que parece, mas não é; ficção, mostra enganosa. 3. Verosimilhança, probabilidade. 4. Filos. Conhecimento imediato de uma coisa através do que nos chega pelos sentidos, a que atribuímos apenas um valor aproximado.

Criam os mais diversos mecanismos para legitimar a exploração e a opressão. São satânicas as muitas formas, claras e sutis, de enganar o povo. O povo sabe, em sua luta por pão, dignidade e justiça social, que deverá desnudar tais tentativas. Neste processo, a Bíblia é velha companheira, ilumina o caminho e mantém a esperança. Senão vejamos:

Jesus foi criado em Nazaré da Galiléia juntamente com outras crianças e aprendeu com seu pai, José, o trabalho de carpinteiro. Aos 30 anos, Jesus começou a pregar e anunciar um projeto novo, o projeto do Reino de Deus. Isto causou espanto, admiração da parte do povo de sua época. O povo pensava que só os escribas e sacerdotes podiam ensinar aos outros. Afinal, eles tinham estudando e pertenciam ao grupo dos puros. Mas quem ficou escandalizado mesmo foram os dirigentes do povo: sacerdotes, escribas, fariseus – a classe dominante da época. Estes não podiam admitir e nem aceitar os ensinamentos de uma pessoa simples do povo. “Que sabedoria é esta que lhe foi dada?”, perguntavam (Evangelho de São Marcos 6.2-3). As multidões ficam entusiasmadas com os seus ensinamentos. Isto preocupa ainda mais os dirigentes do povo.

Os fariseus diziam: “Este homem não vem de Deus porque não guarda o sábado” (João 9.16). Jesus escolhe a maioria dos seus discípulos da classe trabalhadora. Com este grupo Jesus inicia uma prática nova. Oferece salvação e libertação aos pobres e marginalizados (São Mateus 9.35-36). Esta salvação e libertação oferecida aos pobres e marginalizados contrariava o sistema de pureza dos sacerdotes. Jesus mostra que os pequenos, os fracos, os pobres, têm parte no Reino de Deus porque acreditam no projeto de Jesus. Veja também como Jesus orou: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mateus 11.25-30).

Esta prática de Jesus não foi aceita pelos responsáveis e dirigentes do povo. Eles não aceitavam os valores propostos por Jesus. Por isso não podiam ter fé em Jesus e não aceitavam ser seus seguidores.

A prática de Jesus mostra o Reino como evangelho da boa notícia aos pobres; dá lugar a quem não tem lugar no sistema estabelecido. Esta é a grande virada realizada por Jesus: o Reino de Deus vem para mudar a situação dos pobres e marginalizados. E nesta época de advento esta palavra, em promessa, se refaz e mantém a esperança.

 

Filósofo e Teólogo – Professor de Filosofia, Antropologia e História;

Professor aposentado da UNIPAR/UNIVEL e CTESOP;

Professor da Rede Estadual de Educação – Colégio Chateaubriandense.

pardinhorama@gmail.com