Campanha eleitoral 2018 e a verdade como vítima

PARDINHO

Acompanhar as estratégias de campanha política para 2018 é como assistir a um drama espetacular. Três vezes abre-se o pano para exibir as fases de uma luta ferrenha, em argumento e contra-argumento, até que um dos combatentes abandona o palco, cedendo a vitória ao outro. Que está em jogo? Será que uma mentira repetida mil vezes se torna verdade? Por que a repetição gera crenças profundas?

O que farão os políticos mais sujos do que poleiro de pato?

O descrédito dos políticos tradicionais, a rejeição a partidos ideologicamente de esquerda e de direita, a diminuição do período eleitoral e a falta de recursos para contratações de militância. Diante deste quadro, o político que hoje pensa no cenário do próximo ano sabe que não terá vida fácil, principalmente por três motivos: vão com a descrença dos eleitores na boa fé dos candidatos; as pautas negativas que devem ser exploradas no Congresso e a falta de recursos nos estados e municípios.

A resposta será dificultada por uma série de traços incomuns, nesta campanha de 2018. É falado na política que, para o eleitor brasileiro de hoje, passou a ser figura altamente insignificante, servindo apenas para sátiras em rodas de conversas e nas redes sociais. Afora isto causa assombro que a democracia ficou praticamente três décadas jejuando em nosso território. Será que o povo ainda não aprendeu votar?

Por que o Legislativo é a instituição mais desacreditada do Brasil?

Segundo o especialista em orçamento, Cláudio Abramo, fundador da ONG Transparência Brasil, a fortuna utilizada anualmente para cobrir as despesas do Congresso se multiplica nos estados e nos municípios. Cifra equivale ao PIB de nações africanas e do leste europeu.

Recentemente estudo realizado pela ONU revela que Congresso brasileiro é o mais caro do mundo superando os Estados Unidos, que é mais equilibrado economicamente. O povo brasileiro é o que mais paga para sustentar os políticos do Congresso Nacional. A pesquisa revela que os privilégios dos políticos custam muito caro para a população trabalhadora brasileira. Um valor absurdo, que é calculado por baixo, pois não contabiliza o que é desviado por meio dos esquemas de corrupção.

O canto da sereia

No folclore de muitas sociedades é conhecida a lenda de uma sereia que, com o seu belo canto afinado e beleza sem igual, ganha a atenção dos homens e, muitas vezes, leva-os à ruína. No Brasil, essa figura é representada por Iara, que habitava uma região do norte do território banhada pelo Rio Amazonas. Já na política, o canto pode ser, numa analogia, comparado ao discurso político, que tem o objetivo de ganhar os corações e mentes dos eleitores e levar o voto de cada pessoa para o seu mar ou rio partidário na hora da urna.

O discurso é uma exposição metódica que compreende uma torna específica de expressão e ação. Ou seja, cada partido político ou candidato tem o seu estilo de divulgar suas propostas e se dirigir ao eleitorado. Não é somente quando o político sobe no palanque para se dirigir aos seus seguidores ou futuros adeptos que se pode falar de discurso. Mas, não é privilégio da política e seus partidos ter um discurso próprio. Várias outras instituições da sociedade como a academia (universidade), a igreja e a imprensa, por exemplo, usam, respectivamente, os seus discursos para estabelecer uma ponte entre elas e a população.

Porém, o que muitas pessoas não sabem é que esse discurso é construído meticulosamente para ser o mais eficiente possível. Pode-se dizer que o que você assiste e escuta durante o período que antecede as eleições e, por que não, durante a candidatura sendo exercida no seu dia-a-dia, é um teatro cujo roteiro é reescrito de acordo com interesses envolvidos ora numa aprovação de uma lei ou acordo, ou na apresentação de um plano de governo. A encenação é, na maioria das vezes, um grande espetáculo que, ao invés de palmas, recebe o voto como homenagem da população. E, assim, a democracia agradece e se fortalece.

Mas, parafraseando o adágio que diz que, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”,na política não é diferente. O professor e estudioso francês de Ciências da Linguagem, Patrick Charaudeau, que esteve na Bienal Internacional do Livro, realizada em São Paulo, disse a uma revista semanal que, “no espaço público, em que se dá a política, tudo é feito com a finalidade de se conseguir algo”. Pode haver momentos de verdadeira espontaneidade, mas na maioria das vezes ela é pensada, construída.

Vem aí o grande espetáculo político

Como descreveu o compositor e cantor Bezerra da Silva sobre o Candidato Caô Caô:  Ele subiu o morro sem gravata/ Dizendo que gostava da raça/ Foi lá na tendinha bebeu cachaça/ Até bagulho fumou/ Jantou no meu barracão e lá usou/ Lata de goiabada como prato/ Eu logo percebi é mais um candidato/ Para a próxima eleição/ E lá usou lata de goiabada como prato/ Eu logo percebi é mais um candidato/ Para a próxima eleição. Ele fez questão de beber água da chuva/ Foi lá no terreiro pedir ajuda/ Bateu cabeça no gongá/ Mas ele não se deu bem porque / O guia que estava incorporado/ Disse esse político é safado, cuidado na hora de votar. Também disse meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer/ Hoje ele pede seu voto amanhã manda a polícia lhe bater podes crer/ Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer/ Hoje ele pede seu voto amanhã manda os homens lhe prender.

Na política tudo é encenado

“Na política, tudo é encenado”, diz Charaudeau que é o autor do livro Discurso Político (Editora Contexto). Linguisticamente, qualquer tipo de discurso é formado, antes de tudo, por palavras. E estas é que dão o sentido para o seu conteúdo. “Qualquer discurso, antes de se referir a fatos exteriores a ele, constrói os fatos dotando-os de sentido”, explica o professor de Semiótica e Linguística Geral do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Antônio Vicente Pietroforte. Semiótica é a ciência que estuda todos os signos, através dos quais são construídas as linguagens. No caso da construção da linguagem discursiva, são usados dois elementos fundamentais que proporcionam uma eficiência robótica ao discurso: a argumentação e o uso da retórica. “Os discursos escondem o quanto são construções; neles, não há revelação de verdades, mas a construção de verossimilhanças. As verdades são, portanto, relativas ao ponto de vista em que são tratadas”, analisa Pietroforte.

Retórica é uma técnica de elaboração do discurso que consegue comover o ouvinte ou, ainda, a arte de bem falar ou se expressar, seja na forma escrita, visual ou oral. O precursor do estudo e fundamentação da retórica foi o pensador grego Aristóteles (384-322 AC) com o seu tratado denominado Arte Retórica. Um de seus ensinamentos nesse texto é que, assim como não é papel da medicina dar saúde ao doente, mas por outro lado promover o avanço da cura, a retórica não tem o objetivo simplesmente da persuasão, mas, por outro lado, “discernir os meios de persuadir a propósito de cada questão”. Todos nós agimos reto ricamente, afinal temos as nossas opiniões e queremos, por vezes, fazer com que elas prevaleçam.