Festival de Toledo inova e mostra tendências no circo

O coordenador do projeto Circo da Alegria e da XIII Mostra de Circo e VI Festival Nacional de Circo, Dado Guerra, encerrou no sábado, 30, o evento em Toledo satisfeito com os resultados e disposto a trazer mais inovações para a edição do próximo ano. “Conseguimos trazer espetáculos diferentes, fazer as pessoas perceberem a diversidade artística entre as várias regiões do Brasil, trabalhos coletivos, que é uma característica dos grupos locais e que tem maior identificação com o público local, mas também trabalhos com números individuais, com uma qualidade técnica altíssima. Estamos muito satisfeitos, com a qualidade técnica, a diversidade e também com a participação do público, que mesmo em uma semana chuvosa, compareceu de forma expressiva”.

Ele ressaltou também a avaliação positiva junto aos instrutores dos projetos sociais, feita pela comissão avaliadora, formada por Alex Machado, da Escola Nacional de Circo, do Rio de Janeiro, Tânia Piazetta, ex-coordenadora e fundadora do projeto Circo da Alegria, e Aires Coutinho, professor e artista, de Maringá. Eles perceberam e destacaram o crescimento, a evolução dos grupos, principalmente aqueles que estão participando ao longo dos anos, apreendendo a cada edição e colocando os conhecimentos em prática. Fruto disso, são espetáculos mais resolvidos em relação a música, figurino, organização das crianças, composição do espetáculo e qualidade técnica dos trabalhos apresentados. “A gente percebe que os investimentos feitos para a vinda de profissionais como Alex Machado, entre outros, que acompanha o trabalho dos grupos desde o início, dão resultados positivos. É possível comparar a evolução dos grupos, mostrar como estavam e como estão hoje. São experiências compartilhadas, que servem de exemplo para que outros coloquem em prática”, reforça Dado. Para ele, quem ganha com isso são as crianças, que contam com profissionais mais preparados para fazer o seu trabalho, e o público, com espetáculos de melhor qualidade.

Segundo Dado Guerra, o evento também contribuiu para cumprir uma das funções do festival, que é o de trazer novidades e tendências do mundo do circo. “Precisamos de outras referências, não somente do Paraná e de grupos locais que conhecemos. Precisamos trazer grupos que fazem espetáculos diferentes, com outro tipo de estética, de visual, que não estamos acostumados, mas que fazem parte do circo brasileiro e merecem ser apreciados. Algumas pessoas se identificam mais, outras nem tanto, o que é natural, mas precisamos conhecer as novidades”.

Entre os grupos participantes desta edição estavam o Grupo Tangará, de Londrina, uma referência de família tradicional circense, que está se adaptando a uma nova tendência da lona para espaços alternativos, e que fez um espetáculo muito elogiado, com qualidade técnica impecável e com números de alto grau de dificuldade, executados com perfeição. “O grupo é referência no Paraná e no Brasil e traz experiências muito interessantes trocadas em conversas de bastidores”.

Também participou o grupo Sou Arte, de Campo Mourão, formado por 45 artistas> O grupo apresenta uma riqueza técnica e de figurino, destacam-se por onde passa. Com agenda cheia, eles fizeram um esforço extra para estar em Toledo. “O grupo chegou, se apresentou e retornou em seguida para a agenda de compromissos na região e outros estados”, explicou Dado. Ele destacou ainda o grupo Los Circo Los e convidados, de Campinas, São Paulo, com uma performance diferente, incluindo números solos e de duplas, de nível elevadíssimo, e o Circo da Alegria, referência na região, que levou ao palco números diferentes, resgatando o circo tradicional. “A Paula (Bombonatto), que dirigiu o espetáculo, foi muito feliz na escolha do tema e dos números apresentados. Um dos que chamou a atenção e me causava apreensão, era o de atirador de facas. Foi um número muito bacana, sem a tensão antes existente neste tipo de número”.

Qualificação

Além dos espetáculos, uma preocupação foi aproveitar a presença destes profissionais para compartilhar suas experiências em oficinas. O professor Rodrigo Mallet, que acaba de concluir o seu pós-doutorado em circo no Canadá, passou o dia no Circo da Alegria, compartilhando as suas experiências em uma oficina de monociclo com as crianças, assim como Aires Coutinho, referência em diabolô e monociclo, Alex Machado, com oficinas de aéreos para os níveis avançado e iniciante, e Alex Souto, que ministrou um curso de acrobacias aéreas, totalizando 18 horas, divididas em três dias. “Ouvir um depoimento de um acrobata de circo que disse que conseguiu fazer um salto que tentava há anos, graças a uma dica do Alex Souto, é muito gratificante”, diz Dado. “Isso já vale a oficina”

 Crítica Social

Para Dado Guerra, a crítica social é um papel da arte e deve estar presente também na arte circense. Em Toledo, durante o Festival, esta crítica esteve muito presente na performance “O Anjo Gabriel”, com Marcos Gabriel de Freitas,  apresentada na Noite de Luz e Fogo, na pista de skate do Parque Frei Alceu. Não indicada para crianças, a peça faz uma crítica social muito forte e agradou a maioria das pessoas, que permaneceu até o final e acompanhou o desfecho , surpreendendo-se com a mensagem daqueles que acreditam que o amor vence o mal e é possível transformar a sociedade, fazendo boas escolhas. “Com certeza as pessoas vão refletir a partir deste trabalho, fazer boas escolhas e transformar a sociedade, deixando um futuro melhor para os que virão. A arte tem este papel social. Os artistas não devem fazer apenas por fazer. A arte tem o papel de criticar com sabedoria, sem agredir. Muitas vezes o público não entende e não fica até o final para entender o desfecho do que está sendo feito no palco e fazendo uma interpretação errada do que esta função social. Os que ficaram até o final do espetáculo se surpreenderam o desfecho e compreenderam a importância do trabalho”

 Patrimônio de Toledo

Dado Guerra também compartilha da ideia defendida por Alex Machado de que a Mostra e o Festival, assim como o Circo da Alegria, sejam considerados patrimônios de Toledo e sejam feitos investimentos mais efetivos para ampliar o evento, atraindo ainda mais pessoas e tornando-o referência nacional e internacional. Além dos ganhos artísticos, com a formação e troca de experiências para os profissionais e opções para o público, o evento traz benefícios econômicos para a cidade, que podem ser melhor explorados.

Para dimensionar, Dado fornece alguns números. Durante o evento, 625 crianças se apresentaram no palco integrando os grupos sociais. Nos três dias de mostra, com duas edições diárias, a casa permaneceu cheia, o que exigiu a contratação de ônibus pelas escolas para o transporte destas crianças. No Festival, 50 artistas participaram, os quais permaneceram na cidade, consumiram em restaurantes, comércio, entre outros locais. O evento reuniu 28 grupos sociais de 21 municípios da região. Cada grupo que se apresentou produziu o seu espetáculo, que demandou figurino e outros adereços, movimentando a economia nas suas cidades.

Segundo ele, é importante não se acomodar e buscar mais recursos públicos e privados para ampliar o evento, mantendo-o atrativo para o público e artistas. “Precisamos inovar sempre e que as pessoas entendam os impactos sociais, artísticos e financeiros. Daqui a pouco este modelo utilizado se esgota e precisamos recursos para implementar novas ideias e alternativas”. Para o próximo ano, adianta Dado, o Circo da Alegria pretende se beneficiar de recursos do Proficce, uma lei de incentivo do estado do Paraná, e dar mais visibilidade ao evento, com a instalação de uma lona de circo. “Temos algumas ideias ainda sendo analisadas. Concluída esta edição, vamos começar a elaborar os projetos para a próxima, em 2020”.

A XIII Mostra de Circo Social e VI Festival Nacional de Circo de Toledo é uma realização da prefeitura de Toledo, Secretaria de Educação, Escola Municipal Anita Garibaldi/Circo da Alegria e Circo Ático e conta com o apoio das secretarias municipais de Assistência Social, Cultura, Esporte, Comunicação, Administração e outros parceiros.