Intolerância é filha da irracionalidade

A agressividade acompanha os seres vivos desde os seus primórdios. E, temos de entender como tal o seu comportamento no sentido de combater tudo o que se lhes antepõe, principalmente, com vista à sobrevivência das espécies. Em termos biológicos corresponderia a um instinto geneticamente pré-determinado, uma das modalidades de atuação da inteligência mais primitiva. Todavia, embora seja das mais simples atividades cognitivas existentes, ainda hoje, ela atua, excepcionalmente, na manutenção do equilíbrio vivencial entre todos os seres vivos.

Quando nos referimos a comportamento, não apenas o correlacionamos com os animais superiores na escala filogenética, ou com o homem, mas, também, com os micro-organismos e os próprios vegetais. Entre estes dois últimos é que esta primitiva agressividade extravasa, porque neles não surgiu a modalidade mais elevada de raciocínio dependente do desejo, ou seja, a conscientização dos fatos. Ela se mantinha e, ainda, se apresenta como uma necessidade de sobrevivência do ser que a promove, e, desse modo, atua, indiscriminadamente, contra tudo que se lhe antepõe.

EVOLUÇÃO BIOLÓGICA E A MORTE DA RAZÃO – Dentro do contexto iluminista, Voltaire indica que a intolerância seria fruto de uma irracionalidade dos sujeitos, que deixam suas paixões cegarem a percepção da realidade e silenciarem a voz da razão. Logo, a tolerância deve surgir do uso da nossa faculdade racional em refletir sobre o argumento do outro, mesmo que discordando profundamente de suas premissas, pois é assim que, pacificamente, constrói-se o consenso e evitam-se injustiças.

SERÁ CHEGOU O FIM DA DIGNIDADE HUMANA? – O discurso sobre a inviolabilidade dos direitos humanos fundamentais pauta-se como imperativo para todos os povos. Por outro lado, a dignidade humana jamais esteve tão ameaçada, seja pelo armamento nuclear, pela fome, pela manipulação genética, pelos conflitos políticos, religiosos, étnicos, ou seja, por razões múltiplas. A realidade confirma, portanto, a atualidade da reflexão sobre a tolerância. Nesse debate. uma questão crucial que se aborda é saber: qual o limite da tolerância? Ou dito de outra maneira é possível ser tolerante com o intolerável? Existe um meio-termo nessa história, uma terceira via que se tece para além da mera aceitação ou do recurso à violência? Grandes conflitos de ideias em todos os setores nos fazem perguntar: O que é ser tolerante, no dia, nas relações interpessoais, na religião, na política e em todas as ideologias?

É POSSÍVEL DIALOGAR NUMA EPOCA INTELERÂNCIA?  O professor Rivelino Santiago de Carvalho acredita que o limite da tolerância se torna cada vez mais evidente. Tolerância não significa tolerar o intolerável, o que seria a própria negação da tolerância. Já que esta consiste na aceitação mínima do diferente como tradução da coexistência pacífica. Se a tolerância não equivale a tolerar o intolerável, que via se lhe aponta, já que a utilização das mesmas armas da intolerância rejeitaria pelo oposto a própria tolerância? Em termos concretos, com que atitude enfrentar as ações do braço de terrorismo do fundamentalismo religioso e político? O recurso às armas da intolerância comprovou-se historicamente como gerador de mais violência.

COMO EQUILIBRAR RAZÃO E EMOÇÃO? O exercício da tolerância exige o difícil equilíbrio entre razão e emoção. Tarefa que se torna ainda mais desafiadora quando se está diante do impacto provocado pelo intolerável. Mas é exatamente nesse momento que a busca do consenso racional pode contribuir, evitando-se a traição pela emoção e, consequentemente, uma justificativa cuja lógica possui em sua estrutura da mesma forma de pensar fundamentalista: o império do bem contra o império do mal.

Com que atitude, então, enfrentar o fundamentalismo? O caminho que se vislumbra racionalmente é o do diálogo incessante, do acordo justo e transparente e parece não haver outro meio sensato, Leonardo Boff afirma, em seu livro Fundamentalismo: a globalização e o futuro da humanidade, ser necessário dialogar até a exaustão, “negociar até o limite intransponível da razoabilidade”, na esperança de que o fundamentalismo venha a reconhecer o outro e o seu direito de existência. Talvez essa estratégia possibilite romper as bases de sustentação de qualquer fundamentalismo, instaurando uma comunidade de povos,

SINAL DE PERIGO – Embora rejeite-se por inteiro o método, a justificativa e a finalidade das violentas ações fundamentalistas, elas não deixam de indicar algo. Conforme o teólogo Hans Küng, elas apontam os “débitos de uma Era Moderna muitas vezes individualista-libertista” que deveriam ser levados em conta quando se rejeita as soluções do fundamentalismo. Se a maior grandeza dos atos humanos reside na busca de unir a humanidade, então, tudo aquilo que divide os homens é um atentado as boas relações. Cada um está obstinado em absolutizar a sua visão. Isso acontece em matéria de religião, política, economia e tantos outros assuntos.

É POSSÍVEL ENFRENTAR O INTOLERÁVEL? A terceira via (como enfrentar o intolerável) se constrói pela sensibilização pacífica, através de protestos e outras atitudes e, sobretudo, pela busca incessante de diálogo como tentativa de encontrar um meio-termo para os extremos. O exemplo de Jesus ao convidar seus discípulos para baixar a espada é inspirador. Contudo, além da atitude democrática e tolerante, é necessário também que sejam suprimidas as condições que fazem surgir as atitudes intolerantes, principalmente, aquelas originárias do fundamentalismo. Do contrário, também a tolerância será insuficiente.

A TOLERÁCIA COMO VALOR – Como percebemos a tolerância se vincula com os valores democráticos, porém esses valores não são naturalmente internalizados, sendo necessária a constituição de uma educação para a democracia, cultivando nos indivíduos, desde a infância, a cultura da tolerância a partir do debate, da reflexão, do respeito à alteridade e à diversidade. Estimular a reflexão sobre os afetos e a organização do ego, permitindo uma compreensão maior do “eu” e garantindo ao outro o direito de existir e manifestar sua subjetividade. Em outras palavras, tolerar significa estender ao outro os mesmos direitos que reivindicamos a nós mesmos.