Um buraco chamado ignorância

A beleza de uma cidade não se mede somente por ruas, praças e avenidas bonitas e bem cuidadas, mas, principalmente, pela educação de seu povo. O modo como andam no trânsito, de todas as formas, a pé, de bicicleta ou de carro, são os primeiros sinais de como são os cidadãos. Não é preciso ser especialista em comportamento para saber que os hábitos de uma pessoa são seus reflexos psicológicos, assim sendo, o comportamento de uma sociedade é a fotografia do que ela oferece para os demais indivíduos, quando em separado ou mesmo na coletividade.
Dizem que a educação vem de berço e a escola molda o resto. É uma verdade, assim como também é verdadeira a afirmação de que quem cospe no chão da cozinha jamais irá respeitar as ruas alheias.
A sociedade perfeita que todos esperam ainda está muito longe de acontecer, principalmente nas cidades onde o bairrismo caipira ainda é argumento para defender a comunidade. Esse é um pensamento nascido nos povoados medievais, onde qualquer estranho que viesse era rechaçado no estilingue e nas pontas de lanças. Uma cultura não muito diferente das ensinadas nas tribos indígenas que receberam Colombo e Cabral.
Quinhentos e 19 anos depois, muita gente vive como nossos ancestrais. As exceções estão em comunidades onde a educação começa na cozinha de casa e continua lapidada nas escolas, aquelas onde uma criança de três anos de idade é ensinada a dizer, desde muito cedo, as três frases mágicas: “com licença”, “por favor” e “muito obrigado”. Essas são as preliminares que antecedem outras de igual importância, como “posso ajudar?”, “como vai?” e “parabéns!”.
Não é preciso ser escola particular para ensinar bons modos. É preciso ter profissionais preparados para isso, pois não basta saber brincar com crianças, é preciso atender as demandas delas. É inconcebível permitir que o acompanhamento de crianças em escolas seja feito com o que no passado tinha o nome de babá. A criança de hoje exige pessoas com respostas para o que elas assistem na televisão, no vídeo game, na internet e nos celulares. A escolha desses profissionais de apoio aos professores não pode ser na base da simpatia, mas na experiência, na competência. Custa mais caro, mas o futuro não tem preço. Por isso, é preciso investir na educação, caso contrário, ainda vamos ter que conviver muitos anos com pedestres mal-educados, ciclistas cavalares e motoristas quase assassinos potenciais. É preciso reconhecer que a maioria não comete infrações por que quer, mas pela simples falta de conhecimento, num buraco chamado ignorância, onde o único crescimento que admite é o que faz o rabo do cavalo crescer para baixo.
Enquanto o tal buraco existir, vamos fazendo asfalto bonito, praças verdejantes e prédios lindos, mas em sua essência as cidades continuarão carentes de cidadania.